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filosofia e literatura em língua portuguesa

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23
Set19

Dos poetas-cavadores, ou sobre um poema de Jaime Cortesão

RODRIGO ARAUJO

    Há autores que consagraram-se na prosa, de maneira que a poesia ficou quase (mas quase, apenas) que ilibada pela crítica literária. É o caso de Machado de Assis e Guimarães Rosa, por exemplo, para citar rapidamente no caso da literatura brasileira. Em Portugal, caso semelhante se deu com Jaime Cortesão. Quando falamos neste autor, falamos do Jaime Cortesão do chamado «Grupo da Biblioteca», quando foi diretor da Biblioteca Nacional de Lisboa, entre 1919 e 1927, que se dedicou a uma série de reflexões sobre a situação portuguesa na implantação da República no início do século XX. Falamos do Jaime Cortesão do movimento cultural que empreendeu uma « reação » e uma « resposta » à doutrina positivista que perfilou o pensamento português do século XIX. Falamos igualmente deste Jaime Cortesão situadamente universalista e antipositivista, em torno da Renascença Portuguesa, do Porto. Um grande pensador, sem dúvida. Mas que «começou» publicando livros de poesias. Alguns críticos afirmam que, após 1914, Jaime Cortesão « abandonou » a poesia. Não me parece, e o próprio poeta e crítico literário David Mourão-Ferreira, no prefácio às Obras Completas de Jaime Cortesão, afirma isto. Basta vermos a obra de poesia Missa da meia-noite e outros poemas, publicado em 1940, os excelentes poemas que lá contêm. Veja-se o poema «Regresso ao Caos e Ressurreição», de que retiro (ver foto abaixo) os seguintes versos: « [...] ouvia o Mar, já não as ondas / Mas, sim, o fluxo eterno das marés / Eco longínquo e redivivo / Dizendo a vida tumultuosa / O vaivém criador / Do Caos primitivo » (Obras Completas - Poesia. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1998, p. 237).

     Na obra Glória Humilde, de 1914, chama-me a atenção um poema intitulado «O Cavador» (p. 88). Tem me interessado ultimamente essa figura do « cavador » associada ao poeta e ao ofício da criação. Teixeira de Pascoaes e Miguel Torga exploraram muito isto em suas obras -- um pouco mais Torga. Em muitos poemas de Teixeira de Pascoaes o poeta nos induz à imagem da « enxada », para que o poeta a utilize, tal como a pena. Para que labore na terra árida e desértica da página em branco. Miguel Torga, pela experiência da lavoura que teve no Brasil, escreveu muito sobre essa ideia. O poeta é poeta-cavador. Precisa preparar e cultivar na terra, afinal é a Terra seu «grande» tema.

     E fico aqui a pensar no poema do Jaime Cortesão, mas também em Pascoaes e Torga. O que resulta do poeta-cavador? Um poema cheio de suor e sangue. Com o cheiro da Terra fecunda. A poesia é, então, o alimento colhido da terra trabalhada. Não é a poesia o alimento da Vida?

 

O Cavador

Sou cavador: cavo a Terra,

Desbravo torrões às léguas,

Vamos, poisios, à guerra!...

Prometo não vos dar tréguas.

 

Levo a vida bem ganhada;

No fundo da terra entranho

O ferro da minha enxada

Com quantas forças eu tenho.

................................................

A minha enxada faísca

Todo o dia, o tempo todo, 

Mas sou pobre, vivo à risca,

Nunca tiro o pé do lodo.

 

À Terra, se a água é pouca,

Deixo o sangue pelos trilhos,

E muita vez tiro à boca

Pra dar à boca dos filhos.

 

Sou pobre e dou o que tenho,

Pois digo aos ricos: Comei!

Quantas vezes é o amanho,

Que em todo o ano ajuntei

(Obras Completas, p. 88-90).

 

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§

Rodrigo Araujo

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Rodrigo Michell Araujo

Doutor em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Portugal (2020). Mestre em Estudos literários (2014) pela Universidade Federal de Sergipe, Brasil, onde fui professor substituto de Literatura Portuguesa. Licenciado em Letras (2010) pela Universidade Tiradentes (Aracaju - SE).

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