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filosofia e literatura em língua portuguesa

filosofia e literatura em língua portuguesa

07
Ago20

O silêncio não é o contrário

RODRIGO ARAUJO

 

I

Temos algumas dificuldades em lidar com o silêncio. A escuta, por exemplo. Quantos de nós já não nos inquietamos com a presença do silêncio quando o esperado é a voz, a palavra, a música? Cito dois exemplos rápidos. Quando fui ao cinema para a estreia de Ninfomaníaca, de Lars von Trier, todos nós espectadores ficamos muito incomodados na sala de exibição pois nos minutos iniciais do filme a tela fica preta, apenas um puro silêncio. Ouve defeito no projetor?, perguntava alguém próximo a mim. Já numa sala de espetáculos era aguardada a performance de John Cage, em 1952, da peça 4’33’’ (Quatro minutos e trinta e três segundos). Cage senta-se, ajeita os braços como a preparar-se para tocar o piano, mas nada toca. Apenas o silêncio. Não é incorreta a afirmação de Fábio Durão, em uma ponderada interpretação da obra, acerca da fragilidade da definição de 4’33’’ como “peça-silêncio” porque, no fundo, o silêncio absoluto não existe, pois sempre estaremos a ouvir qualquer pulsação, mesmo que seja a pulsação do nosso coração. Mas, nesses exemplos, o silêncio é muito mais que um problema de definição. Nós esperamos alguma coisa, não o silêncio. Esperamos porque o mundo é logocêntrico, porque vivemos sob a primazia da palavra.

 

Mas o homem tende a esperar demais e ouvir de menos. O logos (λόγος, palavra, verbo, pensamento, discurso) impõe ao silêncio uma tensão, mas também uma relação dialética. Por um lado, é exigido ao outro que fale, que não fique em silêncio. Inevitável não lembrar do silêncio de Buda, quando decidiu calar-se como resposta… Daí a popularização da frase, “meu silêncio será minha resposta”. Por outro lado, é negado ao outro que fale. E quanto a isso, não precisamos ir longe para lembrarmos de uma obra muito importante da contemporaneidade que é a obra da Gayatri Spivak, Pode o subalterno falar?, originalmente concebida em 1985 e depois republicada e ampliada em 1998, uma obra que parte do silenciamento dos subalternos e dos marginalizados, ou seja, do silêncio dos que são oprimidos, daqueles que não têm direito à fala, daqueles que têm sempre diante de si um mediador que fala por eles.

 

Com esses exemplos, quero entender o silêncio começando por aquilo que ele não é. Adiciono um caso pessoal. À época do mestrado, em 2012, quando me dispus a estudar uma composição poética oriental do século XVI, o haikai, um poema que deve ser escrito em 3 linhas (forma de composição que ganhou o mundo e que, de certo modo, conquistou um lugar privilegiado na literatura brasileira do século XX, a partir dos anos 70, especialmente com os poetas contraculturais, os “undergrounds” inspirados nos beatniks estadunidenses), eu comecei a sonhar com o silêncio. Eu sentia muito timidamente a linguagem do silêncio, quando folheava os livros de teatro Nô e ali naquelas máscaras percebia que havia muito de silêncio. Sentia-o quando via o teatro de bonecos “kabuki” e ali me parecia uma “valsa do silêncio”, para tomar de empréstimo esta expressão do Teixeira de Pascoaes. Mas eram vagas sensações. Antes de me dedicar ao silêncio no meu doutoramento, ele angustiava-me porque ainda se me apresentava como um vazio que só depois fui compreendendo que é um vazio cheio. Costumo afirmar que o silêncio é aglutinador, impõe deslocamentos. Aberto um espaço de intersecção, um “entremeio”, eu próprio, enquanto pesquisador, estudava o silêncio para estudar o meu próprio silêncio.

 

II

Nas suas diversas maneiras de se manifestar, o silêncio nunca é um contrário. Antes de mais, entendamos por contrário: aquilo que contraria, que é oposto, que é inapropriado, que é adversário, que é hostil. Quando buscamos entender o que é o silêncio, é quase sempre sedutora a afirmação de que é o contrário da voz ou da linguagem, ou que é o oposto do som e do barulho. Como se a fala e a palavra, o logos, preenchessem um espaço, deixando o silêncio num lugar de vazio, de ausência, de falta. Ou seja, nos seduz a ideia de que o silêncio caminha na direção contrária a da linguagem.

 

Recorro sempre a uma escritora que muito estimo, Clarice Lispector, para entender o silêncio não como contrário. Há sempre em Clarice um silêncio que é plenitude. Começando pelo fim, cito uma frase que figura o inicio da obra Um sopro de vida (pulsações), publicada em 1978, um ano após a morte da autora: “O que eu sinto não é traduzível, eu me expresso melhor pelo silêncio”. Trata-se de um pseudo-diálogo entre um “Autor” e a personagem Ângela Pralini (nome que aparece em outros textos da autora), que é um duplo. Na primeira seção da obra, intitulada “o sonho acordado é que é realidade” (são duas, antecedendo a terceira parte, “O livro de Ângela”), Ângela parece estar em estado de sonambulismo, afirmando: “Eu sou o atrás do pensamento. Escrevo no estado de sonolência”.

 

Aproprio-me desta colocação-sonâmbula de Ângela para entender o silêncio como o que está por detrás do pensamento. O silêncio não é o contrário da linguagem, mas está atrás dela. Se o silêncio for entendido como o oposto da linguagem, em direção contrária, um não pode participar do outro. Por detrás, um pode se associar ao outro. Como dois corpos despidos em que o que está por trás também participa, toma parte, mas nunca de maneira superior, hierárquica, deixando o outro no lugar do subalterno, do inferior, do servil. Assim, pode ressoar de maneira mais luminosa a colocação de Maurice Blanchot, em La part du feu, que “só há linguagem no silêncio”. 

 

Não quero me alongar, mas tão somente demonstrar que é no “atrás” (da linguagem, do pensamento etc.) que se manifesta a linguagem do silêncio: essa linguagem nada estranha e bastante expressiva, tão bem percebida por G.H., uma das mais interessantes personagens de Clarice Lispector, ao aceder ao neutro depois de um terrível confronto com um corpo estranho e consigo mesma; também essa linguagem tão bem ouvida pela narradora-escritora de Água viva

 

Em tempos de confinamento, o grande desafio imposto ao início deste século, também nós estamos procurando, procurando, procurando um espaço neutro, reticências e travessões, como se estivéssemos saltando de hiato em hiato… Procurando… Atravessando uma verdadeira via crucis. Não sei quanto a você, leitor, mas aqui tenho aprendido com o silêncio. Não, melhor: aprendido a conviver com o silêncio, de maneira análoga ao convivium do Banquete de Platão, que quer dizer harmonia entre os opostos. Saltando os buracos de mortes diárias, quase naturalizando-os como o mítico Sísifo condenado e destinado a mover a mesma pedra todos os dias, escutar o silêncio tem sido o mesmo que escutar-me, escuta atenta, mas sendo preciso destruir a audição para escutar, como Teixeira de Pascoaes, que ansiava por perder a audição, tal como Beethoven, para ouvir melhor… o silêncio.

 

Mas, com razão, pode perguntar o leitor: para quê escutar-me? Por que o silêncio? Diria eu: é no silêncio que podemos imaginar Sísifo feliz.

 

...

Rodrigo Michell Araujo

22
Mai20

A vida em desuso: notas sobre poesia

RODRIGO ARAUJO

A vida é um hospital

Onde quase tudo falta.

Por isso ninguém se cura

E morrer é que é ter alta

(FERNANDO PESSOA, In: Quadras. Lisboa: Assírio e Alvim, p. 50).

 

 

           Talvez os poetas sejam os que melhor sentem e experienciam as agruras da vida, os que mais se encontram desencaixados no mundo, os que mais nutrem uma espécie atormentadora de inconformação com a realidade. Sujeitos que convivem com uma dor diária, com uma melancolia que desbota a cor do real a sua volta – claro, nem toda poesia é isto, e nem toda criação literária nascerá deste pranto. Estes poetas – atormentados, inconformados, incapazes, rebeldes algumas vezes, transgressoras outras vezes – carregam algo daquilo que um pensador romeno, Emil Cioran, falava a respeito da vida: um banho de fogo de enfermidade (sobretudo em sua primeira obra escrito em romeno, Sur les cimes du désespoir, “Nos cumes do desespero”), onde não há esperanças, onde não há saídas, onde não há sentido viver, porque a vida é puro desespero e agonia – Schopenhauer, de certo modo, também assim pensou: afinal, quando nascemos, a primeira coisa que fazemos é chorar. Por isso, até hoje, é difícil ler poesia. Porque em cada poema há um mundo. Cada poema é uma galáxia. Cada poema é um solo onde o poeta exorciza todo o sentimento, toda a angústia.

 

                Por muito a poesia é isto: quando a vida não basta. São vários os motivos que talvez expliquem a inconformação do poeta perante a realidade: seja social, seja existencial. O poeta é sempre um exilado. O poeta é sempre um estrangeiro no mundo. Um “outro” que parece um ser diferente dos demais. Que tem uma visão diferente da visão dos demais. Mas também o poeta é aquele que diz da realidade, mas de modo diferente. E diz de tal modo (universal) que nós, leitores, nos identificamos com aquilo: quem nunca, ao ler um poema, não sentiu essa identificação a ponto de dizer: não sou o único a sentir isso. E é por isso que a poesia nos conforta, porque quando fala da vida, fala de nós. Estamos no poema.

 

               Uma das angústias que mais acomete ao poeta é a falta de sentido na vida. É a busca de sentido. Por isso o poeta é um sujeito desencaixado. Porque se não há sentido na vida, não há razão de viver nela. Que sentido é este? O que causa esta falta de sentido? Inúmeras respostas. Mas desde a Antiguidade, passando pela lírica trovadoresca na literatura portuguesa, até os cumes do século XIX, o amor (a ausência do amor ou a inacessibilidade do amor) foi (e continua sendo) um articulador desta falta de sentido. Sem amor não há sentido. O amor é o que dá sentido e direção à vida. “Orfeu menos Eurídice, coisa incompreensível”, como nos diz Vinícius de Morais em seu Monólogo de Orfeu (e tão bem declamado por Maria Bethânia em Tempo, tempo, tempo, tempo). Na mitologia, o nascimento de Afrodite já circunscreve os dois lados da moeda: amor/dor. Na lírica trovadoresca em Portugal, os trovadores, especialmente os dos cantares d’amor e d’amigo, tão bem nos mostraram como o amor realça a cor da vida. Já a poesia romântica nos mostra como a vida pode ser um tormento quando o amor (ou o Amor, em maiúsculo) está inacessível, sempre longe, inatingível. O poeta romântico sempre tenta alcança-lo, sem sucesso. Daí perseguirem sempre a face da morte.

 

            Também o tormento da lembrança de uma catástrofe torna, para o poeta, insuportável viver. As tantas catástrofes do século XX tornaram a existência algo quase impossível. Basta lembrarmo-nos de poetas que sobreviveram à guerra, como um Georg Trakl e um Paul Celan, e por viverem atormentados de lembranças o suicídio foi a única saída.  Seja pela ausência do amor, seja por uma experiência traumática ou por qualquer outro motivo, os poetas têm sempre uma missão: fazer alguma coisa nesta vida, quer dizer, transformar a vida em escrita, transformar a vida em poema.

 

                Se a vida é dor, é preciso escrever. E para escrever é preciso levar a cabo aquilo que, de forma exata e certeira, disse o ensaísta francês Maurice Blanchot: “para escrever um único verso, é necessário ter esgotado a vida” (Maurice Blanchot, in: O espaço literário, Editora Rocco,p. 91). Para escrever, o poeta se dilui por completo na obra. Afinal, se a vida não basta, a única coisa que lhe resta é a escrita.

 

               Voltamos à afirmação: por isso ler poesia é muito difícil (há quem passe anos só para esgotar a compreensão de um único poema). Nunca saberemos e nunca chegaremos à dor sentida do poeta. Alguma crítica literária até dirá, e com razão: e não é interessante saber daquilo que o poeta sentiu, pois o que interessa é a obra. O poema é sempre um campo minado onde é preciso ter cuidado, onde, por vezes, nos sentimos virados de cabeça pra baixo.

 

              Lembrando um poema do Manuel Bandeira, “Renúncia”, o que resta ao poeta é isto: tentar curtir, sem queixa, o mal que lhe crucia, porque o mundo, de fato, é sem piedade (Bandeira, talvez, seja um dos melhores exemplos para esta prosa sobre vida/dor/criação literária, já que vivia constantemente ameaçado pela morte por conta da tuberculose, e viveu muito...). A última estrofe do poema do Bandeira termina com o seguinte verso: “Encerra em ti tua tristeza inteira”. Curtir, encerrar, para viver uma vida de renúncia, de sacrifício. Afinal, todo poeta vive de renúncias. A vida é constante renúncia diante da conformidade dos que aceitam tudo que lhe é imposto. O poeta não é conformista. E nem pode ser. O poeta sempre diz não. Lembrando um filósofo do século XVI, Blaise Pascal, em sua monumental obra Os Pensamentos, muitos são os entretenimentos e as distrações da vida que põem o homem em apatia e conformismo (veja como Pascal diz isso no século XVI e é tão característico de nossa contemporaneidade!). Por isso o poeta é um sujeito que está – e estará – sempre à margem.

 

             A vida em desuso. A vida em declínio. Fundo sem fundo. Vários são os poetas e poemas que poderíamos citar aqui nestas notas extremamente introdutórias a uma questão teórica ainda muito cara à própria teoria da literatura: a dor como mola propulsora da criação literária, quer dizer, quando a poesia beira o niilismo. Termino com dois poemas de dois poetas de tempos diferentes, mas que dialogam entre si. Um, “Silêncio” de Medeiros e Albuquerque, poeta pernambucano ainda muito esquecido, introdutor do simbolismo no Brasil e cronologicamente precedente à Cruz e Sousa. Aliás: o romantismo é o maior movimento quando falamos de dor como criação, tendo em vista sua complexidade e seu forte traço existencial. Outro poema: “Soneto da contradição enorme”, de Torquato Neto, poeta piauiense desaguando na Bahia e peça chave para o tropicalismo. Talvez não seja acidental terminar estas notas com um poeta simbolista e um poeta “marginal” da poesia contemporânea (acidental também por serem dois sonetos), tendo em vista que a “poesia marginal” tem um traço existencial e um apelo ontológico um pouco próximo da poesia simbolista. Fiquemos com os poemas. Fiquemos com.

 

 

SILÊNCIO

Cala. Qualquer que seja esse tormento

que te lacera o coração transido,

guarda-o dentro de ti, sem um gemido,

sem um gemido, sem um só lamento!

 

Por mais que doa e sangre o ferimento,

não mostres a ninguém, compadecido,

a tua dor, o teu amor traído:

não prostituas o teu sofrimento!

 

Pranto ou Palavra - em nada disso cabe

todo o amargor de um coração enfermo

profundamente vilipendiado.

 

Nada é tão nobre como ver quem sabe,

trancado dentro de uma dor sem termo,

mágoas terríveis suportar calado!

(MEDEIROS E ALBUQUERQUE, In: Canções da decadência e outros poemas, Editora Martins Fontes, 2003, p. 153).

 

 

 

SONETO DA CONTRADIÇÃO ENORME

 

Faço força em esconder o sentimento

Do mundo triste e feio que eu vejo.

Tento esconder de todos o desejo

Que eu não sinto em viver todo o momento

 

Que passa. Mas que nunca passa inteiro.

Deixa comigo o rosto da lembrança

E o fantasma de só desesperança

Que me empurra e de mim me faz obreiro

 

De sonhos. Faço força em esconder

Do mundo, a dor, a mágoa e a cabeça

Que pensa tão-somente em não viver.

 

Faço força mas sei que não consigo

E em versos integral eu me derramo

Para depois sofrer. E então, prossigo.

 

(TORQUATO NETO, In: Torquatália - do Lado de Dentro, vol. I, Editora Rocco, 2004, p. 46).

 

 

 

  •  

Rodrigo Michell Araujo.

22
Mai20

Do Absurdo da existência: o «homem absurdo» em Teixeira de Pascoaes e Albert Camus

RODRIGO ARAUJO

Quando se fala da obra literária de Teixeira de Pascoaes, alguns elementos que são centrais devem ser destacados, como a íntima relação com a Natureza, revelando certo naturalismo — o próprio Sant’Anna Dionísio, em artigo para a Revista Seara Nova, de 1954, afirmou que Pascoaes «se exprime como se quisesse entender mais com as árvores do que com os homens» (Sant'Anna Dionísio, 1954, p. 52) —, mas também um panteísmo muito presente tanto na poesia como na prosa. Quando tratamos de seus poemas, o mistério está sempre presente. Ou mistérios, no plural. Há, pelo menos, duas manifestações que se relacionam: o «mistério» que o sujeito lírico (também o próprio Pascoaes) vê na Natureza é também o mistério do Ser.

 

Podemos destacar alguns termos que irão figurar quase todos os versos de Teixeira de Pascoaes, desde as suas obras iniciais: o vago, o indefinido, o esboço, o disperso, o suspenso.  Termos que são impregnados para adjetivar o sujeito poético. Se a poesia de Pascoaes tenta definir uma ideia de Ser, é sempre mediante um olhar distanciado. Em Terra Proibida, de 1901, no poema «Canção molhada», vemos que o eu lírico é um «morto sem sepultura» (PASCOAES, 1997, p. 248). Este estado de suspensão do Ser, que é estar morto sem sepultura, é necessário a Pascoaes para tematizá-lo. Mas esta tematização invariavelmente se traduz em procura. O Poeta quer desvelar o mistério que há no Ser, e o faz pelo silêncio — talvez aqui uma influência de Leonardo Coimbra, que viu a «alegria» de desvendar o mistério: «penetrar o mistério, que sublime alegria!» (Leonardo Coimbra, em A Alegria, a Dor e a Graça, p. 48).

 

Na procura pelo Ser, Pascoaes descobre o Absurdo. Ou o «homem absurdo», tal como vislumbrou Camus ao questionar o sentido da vida, justamente neste estado de suspensão e de distanciamento que há na poesia de Pascoaes. Questionar, mas também duvidar. Em Pascoaes, como também em Albert Camus, há uma procura por um «elo» que faça superar sua condição de estrangeiro na existência, mas encontra apenas o «divórcio» da vida. É o que Camus, em O mito de Sísifo, entenderá por «absurdidade», pois «esse divórcio entre o homem e a sua vida, entre o ator e seu cenário, é que é propriamente o sentimento da absurdidade» (Albert Camus, O mito de Sísifo, p. 9).

 

Quanto ao Absurdo, Pascoaes e Camus mantém uma estreita aproximação. Ambos partilham um pensamento, experiência e criação do Absurdo. Cada um, à sua maneira, aponta o absurdo da condição humana, mas também o «porque» e o «para quê» que o homem absurdo lança diante da sua própria existência (absurda) — por isso, em Para a luz, de Pascoaes, haver uma presença de Camus em quase todos os poemas, pois o sujeito poético, sempre revoltado, vislumbra a miséria da existência, mas, à maneira de Camus, tenta dar alguma forma ao seu destino. Se Camus apela para que nós imaginemos «Sísifo feliz», é para assim encontrarmos alguma «clareza» na corda da familiaridade que nos liga à existência. 

 

Parece-me que a poesia de Pascoaes sempre comportou este «homem absurdo» camusiano, alternando entre a felicidade e o absurdo, tentando superar o bacilo da existência. É o que está expresso em quase todos os poemas da obra póstuma Últimos versos, de Pascoaes. Nestes «últimos versos», Pascoaes mantém a «originalidade» que constitui seu expressar, diferentemente do que entendeu João Gaspar Simões, ao tratar os Últimos versos como uma obra em que a Filosofia se sobrepõe à Poesia, onde o Poeta está «a atraiçoar a poesia com a razão, com o discurso, com a Inteligência» (João Gaspar Simões, Suplemente de «Amanhã», jornal Letras e Artes, 1953, p. 1) — afirma até que a obra expressa menos uma originalidade e mais uma «excentricidade», fazendo dos Últimos versos uma obra de «locubrações pseudo-filosóficas» (Idem, p. 10). 

 

No poema «Loucura», podemos observar que o que está em causa é o «sonhar acordado», que tão bem constitui a sua criação poética. O devaneio poético é uma via que Pascoaes encontra para apreender o Ser. No poema, o Ser aparece como síntese:

 

Deus e Satã, o mesmo Ser

Com duas faces,

A branca e a negra,

A do verbo encarnado

E a do silêncio

Anterior ao verbo

Mas grávido de toda

A etérea música

(PASCOAES, 1953, p. 27).

 

 

O Ser é Verbo, mas também silêncio primordial, que é anterior ao próprio Verbo. Eis o que constitui o «homem universal» pascoaesiano. Se Pascoaes encontra esta «síntese» no Ser, é porque o próprio silêncio é abertura para a síntese, como também para o encontro e para as resoluções de qualquer «tensão» entre os opostos. Em Últimos versos, os títulos dos poemas já inscrevem esta síntese, a partir da conjunção aditiva «e»: «Pobres e ricos», «Ontem e hoje», «Vento e chuva», «Antes e depois», «Hilário e nobre, «O longe e o perto». No poema «Convivência», convive no homem os opostos, o próximo e o distante:

 

No próximo reside

O tremendo conflito

Da convivência.

Estalam ruídos agressivos,

Brilham gestos em lâminas de faca,

Rebentam bombas!

[…]

Mas, na distância,

Ressoa a música dos astros,

Para os herdeiros de Platão,

Esses poetas

Ou esses místicos…

Sem misticismo a nossa vida

É apenas existência,

Objecto e não sujeito

(PASCOAES, 1953, p. 46).

 

 

Em «O longe e o perto», é o próprio poeta, Teixeira de Pascoaes, que se vê como síntese, principalmente síntese de seus próprios personagens:

 

O perto é vivo, o longe é morto.

A morte é na distância,

Em nós, a vida.

A vida é o tempo que voa,

A morte é a eternidade,

Negra e parada, nesse

Distanciamento

[…]

E quem sou eu?

O doido e a morte, a Esfinge,

A luz da Lua

E o pobre tolo,

Na tua ponte, ó São Gonçalo

(Idem, p. 48, grifos do autor).

 

Esta «síntese», pela qual o Poeta apreende o Ser, só é possível mediante o silêncio, pois é este que permite «a intimidade mais perfeita» (Idem, p. 79) entre os opostos. Se o silêncio está presente em seus «últimos versos», é para que o poema possa guardar o Ser. Pois é pela poesia e pelo silêncio que Pascoaes chega ao Ser.

 

§

Rodrigo Michell Araujo

20
Mar20

Meditação de isolamento para tempo incerto

RODRIGO ARAUJO

Dolente,

percorro inutilmente o tempo das horas mortas. 2020 parece um ano por começar apontando para o vazio, impondo-nos um isolamento que, por vezes, é angustiante. Bombardeia-nos o medo: do movimento, do toque, da empatia, do afeto. Estamos ilhados. Sós. Numa profunda ilha da qual já nos encontrávamos em estado de sonolência, inertes por alguma espera vinda de não sei onde. Onde estamos? Talvez perdidos, mas certamente embebidos do espanto da clausura. Primeiro, a clausura do fora. Segundo, a clausura do dentro. A pior. O mais fundo pântano de nós mesmos. Absurdamente abandonados.

 

Todos os dias a mesma rotina: pôr o café na cafeteira e perder-se, em seguida, na parca luz que vem de fora. Uma "estátua falsa" despoletada do templo prestes a ruir sem deus, como aquele poema do Sá-Carneiro. Mas estátua atenta ao grosso silêncio que se ouve lá de fora, onde nada se mexe. Depois tem o fumo do cigarro que se encortina no espaço, deixando a visão suspensa. Mentira. Quem fica em suspenso é tão somente a fundura do meu Ser. Mais adiante o silêncio... meu amigo, minha música. Pensamos, por vezes, que no abissal silêncio a gente até escuta o pulsar do coração. Não. Comigo o silêncio faz vibrar com violência todas as paredes do meu Eu, fecho os olhos, e então a Música começa.

 

Pouco a pouco vamos nos entretendo com as miudezas do dia a dia. Boiar os olhos na overdose de notícias de uma tevê uníssona, pegar um livro e folhear as páginas, mas vagarosamente, porque há muito tempo e é preciso desfrutá-lo de algum modo, e de novo o café, o intrépido alimento. Mas você se esquece que está irremediavelmente só. Lembrei de um poema. É de um poema do Adolfo Casais Monteiro, intitulado "A manhã no café deserto", que versa sobre essa quase letargia que me vejo em tempos incertos (e que máxima importância tem um Café, o lugar eleito dos solitários). É assim o poema:

Café.
Ruídos abafados.
É como se a vida fosse calafetada.
Quase silencio.
Os ruídos da rua chegam por este corredor fora
Como enfraquecidos da viagem.
Aqui ao fundo a sombra é maior,
Hoje que chove lá fora,
Miudamente.
Tepidez.
Folheio livros, distraído,
Por aqui ser inútil fingir qualquer acção.
Estar aqui sozinho é viver intensamente,
Estar aqui silencioso e recolhido
Dá não sei que ciência de todos os segredos do fluir da vida.
O café: acumulador de todos os destinos aqui suspensos um

[momento:
nesta atmosfera densa permanece a síntese de todos os caminhos
Aqui onde o silencio existe a esta hora da manhã,
Existe apesar dos ruídos,
Segunda atmosfera suspensa e doce,
Alheia ao que não seja a sua compenetrada reflexão
Sobre o surdo ressoar das vidas que por aqui se fixaram um

[momento.
Planalto para onde todos trouxeram a descansar a agitação das suas vidas
Que puseram ao lado a acalmar sobre os longos divãs de couro,
E onde vieram beber na espessa bebida negra a paz momentânea

[ou mais excitação.

Paz.
Lusco-fusco.
Alheamento.
Aqui até a nossa vida nos é um espectáculo
Exterior como um filme ao fundo da sala em trevas.
Café,
Meu amigo!

 

Primeiro deixa eu te falar uma coisa. Eu adoro o título deste livro do Adolfo Casais Monteiro onde o poema acima se encontra, chama-se Poemas do tempo incerto, de 1934, com poemas escritos pelo autor entre 1928-1932. De algum modo, sempre vivemos em algum tempo incerto, e talvez os poetas melhor cantem essas incertezas que ecoam das agruras da vida. Talvez, ainda, eu esteja me confundido no que quero dizer porque essa clausura me faz perder de mim mesmo em estranhos labirintos. Os dias têm sido de errâncias, mas propriamente imaginárias, não as físicas. E clausuras sempre nos conduzem a portas metafísicas. Mas,

 

tenho que manter os pés no chão. Café outra vez. Sim, o que eu gosto no poema do Adolfo Casais Monteiro é a maneira íntima como expõe a parte solitária de nós neste "estar aqui silencioso e recolhido" que nos impele a uma sensação de tocar nos segredos do fluir da vida.  Porque quanto mais distante, e mais distante de nós, mais a ressonância do segredo se faz audível, que é a parte mais audível do silêncio. Eu tenho que lhes contar: a meditação tem sido o cais onde o meu barco cansado aporta, de onde desço cansado, onde ando cansado, e mais adiante me sento para beber a espessa bebida negra de onde tento tirar a paz momentânea.

 

Vou ficar aqui, sentado,

Calado. Quieto. À espera de qualquer coisa...

Mais sobre mim

Rodrigo Michell Araujo

Doutor em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Portugal (2020). Mestre em Estudos literários (2014) pela Universidade Federal de Sergipe, Brasil, onde fui professor substituto de Literatura Portuguesa. Licenciado em Letras (2010) pela Universidade Tiradentes (Aracaju - SE).

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