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filosofia e literatura em língua portuguesa

filosofia e literatura em língua portuguesa

07
Ago20

O silêncio não é o contrário

RODRIGO ARAUJO

 

I

Temos algumas dificuldades em lidar com o silêncio. A escuta, por exemplo. Quantos de nós já não nos inquietamos com a presença do silêncio quando o esperado é a voz, a palavra, a música? Cito dois exemplos rápidos. Quando fui ao cinema para a estreia de Ninfomaníaca, de Lars von Trier, todos nós espectadores ficamos muito incomodados na sala de exibição pois nos minutos iniciais do filme a tela fica preta, apenas um puro silêncio. Ouve defeito no projetor?, perguntava alguém próximo a mim. Já numa sala de espetáculos era aguardada a performance de John Cage, em 1952, da peça 4’33’’ (Quatro minutos e trinta e três segundos). Cage senta-se, ajeita os braços como a preparar-se para tocar o piano, mas nada toca. Apenas o silêncio. Não é incorreta a afirmação de Fábio Durão, em uma ponderada interpretação da obra, acerca da fragilidade da definição de 4’33’’ como “peça-silêncio” porque, no fundo, o silêncio absoluto não existe, pois sempre estaremos a ouvir qualquer pulsação, mesmo que seja a pulsação do nosso coração. Mas, nesses exemplos, o silêncio é muito mais que um problema de definição. Nós esperamos alguma coisa, não o silêncio. Esperamos porque o mundo é logocêntrico, porque vivemos sob a primazia da palavra.

 

Mas o homem tende a esperar demais e ouvir de menos. O logos (λόγος, palavra, verbo, pensamento, discurso) impõe ao silêncio uma tensão, mas também uma relação dialética. Por um lado, é exigido ao outro que fale, que não fique em silêncio. Inevitável não lembrar do silêncio de Buda, quando decidiu calar-se como resposta… Daí a popularização da frase, “meu silêncio será minha resposta”. Por outro lado, é negado ao outro que fale. E quanto a isso, não precisamos ir longe para lembrarmos de uma obra muito importante da contemporaneidade que é a obra da Gayatri Spivak, Pode o subalterno falar?, originalmente concebida em 1985 e depois republicada e ampliada em 1998, uma obra que parte do silenciamento dos subalternos e dos marginalizados, ou seja, do silêncio dos que são oprimidos, daqueles que não têm direito à fala, daqueles que têm sempre diante de si um mediador que fala por eles.

 

Com esses exemplos, quero entender o silêncio começando por aquilo que ele não é. Adiciono um caso pessoal. À época do mestrado, em 2012, quando me dispus a estudar uma composição poética oriental do século XVI, o haikai, um poema que deve ser escrito em 3 linhas (forma de composição que ganhou o mundo e que, de certo modo, conquistou um lugar privilegiado na literatura brasileira do século XX, a partir dos anos 70, especialmente com os poetas contraculturais, os “undergrounds” inspirados nos beatniks estadunidenses), eu comecei a sonhar com o silêncio. Eu sentia muito timidamente a linguagem do silêncio, quando folheava os livros de teatro Nô e ali naquelas máscaras percebia que havia muito de silêncio. Sentia-o quando via o teatro de bonecos “kabuki” e ali me parecia uma “valsa do silêncio”, para tomar de empréstimo esta expressão do Teixeira de Pascoaes. Mas eram vagas sensações. Antes de me dedicar ao silêncio no meu doutoramento, ele angustiava-me porque ainda se me apresentava como um vazio que só depois fui compreendendo que é um vazio cheio. Costumo afirmar que o silêncio é aglutinador, impõe deslocamentos. Aberto um espaço de intersecção, um “entremeio”, eu próprio, enquanto pesquisador, estudava o silêncio para estudar o meu próprio silêncio.

 

II

Nas suas diversas maneiras de se manifestar, o silêncio nunca é um contrário. Antes de mais, entendamos por contrário: aquilo que contraria, que é oposto, que é inapropriado, que é adversário, que é hostil. Quando buscamos entender o que é o silêncio, é quase sempre sedutora a afirmação de que é o contrário da voz ou da linguagem, ou que é o oposto do som e do barulho. Como se a fala e a palavra, o logos, preenchessem um espaço, deixando o silêncio num lugar de vazio, de ausência, de falta. Ou seja, nos seduz a ideia de que o silêncio caminha na direção contrária a da linguagem.

 

Recorro sempre a uma escritora que muito estimo, Clarice Lispector, para entender o silêncio não como contrário. Há sempre em Clarice um silêncio que é plenitude. Começando pelo fim, cito uma frase que figura o inicio da obra Um sopro de vida (pulsações), publicada em 1978, um ano após a morte da autora: “O que eu sinto não é traduzível, eu me expresso melhor pelo silêncio”. Trata-se de um pseudo-diálogo entre um “Autor” e a personagem Ângela Pralini (nome que aparece em outros textos da autora), que é um duplo. Na primeira seção da obra, intitulada “o sonho acordado é que é realidade” (são duas, antecedendo a terceira parte, “O livro de Ângela”), Ângela parece estar em estado de sonambulismo, afirmando: “Eu sou o atrás do pensamento. Escrevo no estado de sonolência”.

 

Aproprio-me desta colocação-sonâmbula de Ângela para entender o silêncio como o que está por detrás do pensamento. O silêncio não é o contrário da linguagem, mas está atrás dela. Se o silêncio for entendido como o oposto da linguagem, em direção contrária, um não pode participar do outro. Por detrás, um pode se associar ao outro. Como dois corpos despidos em que o que está por trás também participa, toma parte, mas nunca de maneira superior, hierárquica, deixando o outro no lugar do subalterno, do inferior, do servil. Assim, pode ressoar de maneira mais luminosa a colocação de Maurice Blanchot, em La part du feu, que “só há linguagem no silêncio”. 

 

Não quero me alongar, mas tão somente demonstrar que é no “atrás” (da linguagem, do pensamento etc.) que se manifesta a linguagem do silêncio: essa linguagem nada estranha e bastante expressiva, tão bem percebida por G.H., uma das mais interessantes personagens de Clarice Lispector, ao aceder ao neutro depois de um terrível confronto com um corpo estranho e consigo mesma; também essa linguagem tão bem ouvida pela narradora-escritora de Água viva

 

Em tempos de confinamento, o grande desafio imposto ao início deste século, também nós estamos procurando, procurando, procurando um espaço neutro, reticências e travessões, como se estivéssemos saltando de hiato em hiato… Procurando… Atravessando uma verdadeira via crucis. Não sei quanto a você, leitor, mas aqui tenho aprendido com o silêncio. Não, melhor: aprendido a conviver com o silêncio, de maneira análoga ao convivium do Banquete de Platão, que quer dizer harmonia entre os opostos. Saltando os buracos de mortes diárias, quase naturalizando-os como o mítico Sísifo condenado e destinado a mover a mesma pedra todos os dias, escutar o silêncio tem sido o mesmo que escutar-me, escuta atenta, mas sendo preciso destruir a audição para escutar, como Teixeira de Pascoaes, que ansiava por perder a audição, tal como Beethoven, para ouvir melhor… o silêncio.

 

Mas, com razão, pode perguntar o leitor: para quê escutar-me? Por que o silêncio? Diria eu: é no silêncio que podemos imaginar Sísifo feliz.

 

...

Rodrigo Michell Araujo

03
Jun20

Encontros virtuais de Filosofia e Literatura #Aula 3 - Eça de Queiroz e o Brasil

RODRIGO ARAUJO

Olá! Nesta #Aula 3 de nossos Encontros virtuais de Filosofia e Literatura converso com vocês sobre este que foi um autor central para o século XIX em Portugal: Eça de Queiroz. Além de uma breve caracterização do momento histórico português (em regime monárquico) e de traços gerais de sua obra, falo neste video sobre a estreita relação que Eça teve com o Brasil (familiar e intelectual) e como este Brasil leu a sua obra, que tinha grande circulação. O objetivo desta Aula é pensar um pouco mais (de maneira introdutória) sobre a relação entre o filosófico e o literário a partir de uma frase de Eça. Espero que gostem e compartilhem. Abraço e até a próxima!

 

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Rodrigo Michell Araujo

22
Mai20

A vida em desuso: notas sobre poesia

RODRIGO ARAUJO

A vida é um hospital

Onde quase tudo falta.

Por isso ninguém se cura

E morrer é que é ter alta

(FERNANDO PESSOA, In: Quadras. Lisboa: Assírio e Alvim, p. 50).

 

 

           Talvez os poetas sejam os que melhor sentem e experienciam as agruras da vida, os que mais se encontram desencaixados no mundo, os que mais nutrem uma espécie atormentadora de inconformação com a realidade. Sujeitos que convivem com uma dor diária, com uma melancolia que desbota a cor do real a sua volta – claro, nem toda poesia é isto, e nem toda criação literária nascerá deste pranto. Estes poetas – atormentados, inconformados, incapazes, rebeldes algumas vezes, transgressoras outras vezes – carregam algo daquilo que um pensador romeno, Emil Cioran, falava a respeito da vida: um banho de fogo de enfermidade (sobretudo em sua primeira obra escrito em romeno, Sur les cimes du désespoir, “Nos cumes do desespero”), onde não há esperanças, onde não há saídas, onde não há sentido viver, porque a vida é puro desespero e agonia – Schopenhauer, de certo modo, também assim pensou: afinal, quando nascemos, a primeira coisa que fazemos é chorar. Por isso, até hoje, é difícil ler poesia. Porque em cada poema há um mundo. Cada poema é uma galáxia. Cada poema é um solo onde o poeta exorciza todo o sentimento, toda a angústia.

 

                Por muito a poesia é isto: quando a vida não basta. São vários os motivos que talvez expliquem a inconformação do poeta perante a realidade: seja social, seja existencial. O poeta é sempre um exilado. O poeta é sempre um estrangeiro no mundo. Um “outro” que parece um ser diferente dos demais. Que tem uma visão diferente da visão dos demais. Mas também o poeta é aquele que diz da realidade, mas de modo diferente. E diz de tal modo (universal) que nós, leitores, nos identificamos com aquilo: quem nunca, ao ler um poema, não sentiu essa identificação a ponto de dizer: não sou o único a sentir isso. E é por isso que a poesia nos conforta, porque quando fala da vida, fala de nós. Estamos no poema.

 

               Uma das angústias que mais acomete ao poeta é a falta de sentido na vida. É a busca de sentido. Por isso o poeta é um sujeito desencaixado. Porque se não há sentido na vida, não há razão de viver nela. Que sentido é este? O que causa esta falta de sentido? Inúmeras respostas. Mas desde a Antiguidade, passando pela lírica trovadoresca na literatura portuguesa, até os cumes do século XIX, o amor (a ausência do amor ou a inacessibilidade do amor) foi (e continua sendo) um articulador desta falta de sentido. Sem amor não há sentido. O amor é o que dá sentido e direção à vida. “Orfeu menos Eurídice, coisa incompreensível”, como nos diz Vinícius de Morais em seu Monólogo de Orfeu (e tão bem declamado por Maria Bethânia em Tempo, tempo, tempo, tempo). Na mitologia, o nascimento de Afrodite já circunscreve os dois lados da moeda: amor/dor. Na lírica trovadoresca em Portugal, os trovadores, especialmente os dos cantares d’amor e d’amigo, tão bem nos mostraram como o amor realça a cor da vida. Já a poesia romântica nos mostra como a vida pode ser um tormento quando o amor (ou o Amor, em maiúsculo) está inacessível, sempre longe, inatingível. O poeta romântico sempre tenta alcança-lo, sem sucesso. Daí perseguirem sempre a face da morte.

 

            Também o tormento da lembrança de uma catástrofe torna, para o poeta, insuportável viver. As tantas catástrofes do século XX tornaram a existência algo quase impossível. Basta lembrarmo-nos de poetas que sobreviveram à guerra, como um Georg Trakl e um Paul Celan, e por viverem atormentados de lembranças o suicídio foi a única saída.  Seja pela ausência do amor, seja por uma experiência traumática ou por qualquer outro motivo, os poetas têm sempre uma missão: fazer alguma coisa nesta vida, quer dizer, transformar a vida em escrita, transformar a vida em poema.

 

                Se a vida é dor, é preciso escrever. E para escrever é preciso levar a cabo aquilo que, de forma exata e certeira, disse o ensaísta francês Maurice Blanchot: “para escrever um único verso, é necessário ter esgotado a vida” (Maurice Blanchot, in: O espaço literário, Editora Rocco,p. 91). Para escrever, o poeta se dilui por completo na obra. Afinal, se a vida não basta, a única coisa que lhe resta é a escrita.

 

               Voltamos à afirmação: por isso ler poesia é muito difícil (há quem passe anos só para esgotar a compreensão de um único poema). Nunca saberemos e nunca chegaremos à dor sentida do poeta. Alguma crítica literária até dirá, e com razão: e não é interessante saber daquilo que o poeta sentiu, pois o que interessa é a obra. O poema é sempre um campo minado onde é preciso ter cuidado, onde, por vezes, nos sentimos virados de cabeça pra baixo.

 

              Lembrando um poema do Manuel Bandeira, “Renúncia”, o que resta ao poeta é isto: tentar curtir, sem queixa, o mal que lhe crucia, porque o mundo, de fato, é sem piedade (Bandeira, talvez, seja um dos melhores exemplos para esta prosa sobre vida/dor/criação literária, já que vivia constantemente ameaçado pela morte por conta da tuberculose, e viveu muito...). A última estrofe do poema do Bandeira termina com o seguinte verso: “Encerra em ti tua tristeza inteira”. Curtir, encerrar, para viver uma vida de renúncia, de sacrifício. Afinal, todo poeta vive de renúncias. A vida é constante renúncia diante da conformidade dos que aceitam tudo que lhe é imposto. O poeta não é conformista. E nem pode ser. O poeta sempre diz não. Lembrando um filósofo do século XVI, Blaise Pascal, em sua monumental obra Os Pensamentos, muitos são os entretenimentos e as distrações da vida que põem o homem em apatia e conformismo (veja como Pascal diz isso no século XVI e é tão característico de nossa contemporaneidade!). Por isso o poeta é um sujeito que está – e estará – sempre à margem.

 

             A vida em desuso. A vida em declínio. Fundo sem fundo. Vários são os poetas e poemas que poderíamos citar aqui nestas notas extremamente introdutórias a uma questão teórica ainda muito cara à própria teoria da literatura: a dor como mola propulsora da criação literária, quer dizer, quando a poesia beira o niilismo. Termino com dois poemas de dois poetas de tempos diferentes, mas que dialogam entre si. Um, “Silêncio” de Medeiros e Albuquerque, poeta pernambucano ainda muito esquecido, introdutor do simbolismo no Brasil e cronologicamente precedente à Cruz e Sousa. Aliás: o romantismo é o maior movimento quando falamos de dor como criação, tendo em vista sua complexidade e seu forte traço existencial. Outro poema: “Soneto da contradição enorme”, de Torquato Neto, poeta piauiense desaguando na Bahia e peça chave para o tropicalismo. Talvez não seja acidental terminar estas notas com um poeta simbolista e um poeta “marginal” da poesia contemporânea (acidental também por serem dois sonetos), tendo em vista que a “poesia marginal” tem um traço existencial e um apelo ontológico um pouco próximo da poesia simbolista. Fiquemos com os poemas. Fiquemos com.

 

 

SILÊNCIO

Cala. Qualquer que seja esse tormento

que te lacera o coração transido,

guarda-o dentro de ti, sem um gemido,

sem um gemido, sem um só lamento!

 

Por mais que doa e sangre o ferimento,

não mostres a ninguém, compadecido,

a tua dor, o teu amor traído:

não prostituas o teu sofrimento!

 

Pranto ou Palavra - em nada disso cabe

todo o amargor de um coração enfermo

profundamente vilipendiado.

 

Nada é tão nobre como ver quem sabe,

trancado dentro de uma dor sem termo,

mágoas terríveis suportar calado!

(MEDEIROS E ALBUQUERQUE, In: Canções da decadência e outros poemas, Editora Martins Fontes, 2003, p. 153).

 

 

 

SONETO DA CONTRADIÇÃO ENORME

 

Faço força em esconder o sentimento

Do mundo triste e feio que eu vejo.

Tento esconder de todos o desejo

Que eu não sinto em viver todo o momento

 

Que passa. Mas que nunca passa inteiro.

Deixa comigo o rosto da lembrança

E o fantasma de só desesperança

Que me empurra e de mim me faz obreiro

 

De sonhos. Faço força em esconder

Do mundo, a dor, a mágoa e a cabeça

Que pensa tão-somente em não viver.

 

Faço força mas sei que não consigo

E em versos integral eu me derramo

Para depois sofrer. E então, prossigo.

 

(TORQUATO NETO, In: Torquatália - do Lado de Dentro, vol. I, Editora Rocco, 2004, p. 46).

 

 

 

  •  

Rodrigo Michell Araujo.

Mais sobre mim

Rodrigo Michell Araujo

Doutor em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Portugal (2020). Mestre em Estudos literários (2014) pela Universidade Federal de Sergipe, Brasil, onde fui professor substituto de Literatura Portuguesa. Licenciado em Letras (2010) pela Universidade Tiradentes (Aracaju - SE).

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