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filosofia e literatura em língua portuguesa

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22
Mai20

A vida em desuso: notas sobre poesia

RODRIGO ARAUJO

A vida é um hospital

Onde quase tudo falta.

Por isso ninguém se cura

E morrer é que é ter alta

(FERNANDO PESSOA, In: Quadras. Lisboa: Assírio e Alvim, p. 50).

 

 

           Talvez os poetas sejam os que melhor sentem e experienciam as agruras da vida, os que mais se encontram desencaixados no mundo, os que mais nutrem uma espécie atormentadora de inconformação com a realidade. Sujeitos que convivem com uma dor diária, com uma melancolia que desbota a cor do real a sua volta – claro, nem toda poesia é isto, e nem toda criação literária nascerá deste pranto. Estes poetas – atormentados, inconformados, incapazes, rebeldes algumas vezes, transgressoras outras vezes – carregam algo daquilo que um pensador romeno, Emil Cioran, falava a respeito da vida: um banho de fogo de enfermidade (sobretudo em sua primeira obra escrito em romeno, Sur les cimes du désespoir, “Nos cumes do desespero”), onde não há esperanças, onde não há saídas, onde não há sentido viver, porque a vida é puro desespero e agonia – Schopenhauer, de certo modo, também assim pensou: afinal, quando nascemos, a primeira coisa que fazemos é chorar. Por isso, até hoje, é difícil ler poesia. Porque em cada poema há um mundo. Cada poema é uma galáxia. Cada poema é um solo onde o poeta exorciza todo o sentimento, toda a angústia.

 

                Por muito a poesia é isto: quando a vida não basta. São vários os motivos que talvez expliquem a inconformação do poeta perante a realidade: seja social, seja existencial. O poeta é sempre um exilado. O poeta é sempre um estrangeiro no mundo. Um “outro” que parece um ser diferente dos demais. Que tem uma visão diferente da visão dos demais. Mas também o poeta é aquele que diz da realidade, mas de modo diferente. E diz de tal modo (universal) que nós, leitores, nos identificamos com aquilo: quem nunca, ao ler um poema, não sentiu essa identificação a ponto de dizer: não sou o único a sentir isso. E é por isso que a poesia nos conforta, porque quando fala da vida, fala de nós. Estamos no poema.

 

               Uma das angústias que mais acomete ao poeta é a falta de sentido na vida. É a busca de sentido. Por isso o poeta é um sujeito desencaixado. Porque se não há sentido na vida, não há razão de viver nela. Que sentido é este? O que causa esta falta de sentido? Inúmeras respostas. Mas desde a Antiguidade, passando pela lírica trovadoresca na literatura portuguesa, até os cumes do século XIX, o amor (a ausência do amor ou a inacessibilidade do amor) foi (e continua sendo) um articulador desta falta de sentido. Sem amor não há sentido. O amor é o que dá sentido e direção à vida. “Orfeu menos Eurídice, coisa incompreensível”, como nos diz Vinícius de Morais em seu Monólogo de Orfeu (e tão bem declamado por Maria Bethânia em Tempo, tempo, tempo, tempo). Na mitologia, o nascimento de Afrodite já circunscreve os dois lados da moeda: amor/dor. Na lírica trovadoresca em Portugal, os trovadores, especialmente os dos cantares d’amor e d’amigo, tão bem nos mostraram como o amor realça a cor da vida. Já a poesia romântica nos mostra como a vida pode ser um tormento quando o amor (ou o Amor, em maiúsculo) está inacessível, sempre longe, inatingível. O poeta romântico sempre tenta alcança-lo, sem sucesso. Daí perseguirem sempre a face da morte.

 

            Também o tormento da lembrança de uma catástrofe torna, para o poeta, insuportável viver. As tantas catástrofes do século XX tornaram a existência algo quase impossível. Basta lembrarmo-nos de poetas que sobreviveram à guerra, como um Georg Trakl e um Paul Celan, e por viverem atormentados de lembranças o suicídio foi a única saída.  Seja pela ausência do amor, seja por uma experiência traumática ou por qualquer outro motivo, os poetas têm sempre uma missão: fazer alguma coisa nesta vida, quer dizer, transformar a vida em escrita, transformar a vida em poema.

 

                Se a vida é dor, é preciso escrever. E para escrever é preciso levar a cabo aquilo que, de forma exata e certeira, disse o ensaísta francês Maurice Blanchot: “para escrever um único verso, é necessário ter esgotado a vida” (Maurice Blanchot, in: O espaço literário, Editora Rocco,p. 91). Para escrever, o poeta se dilui por completo na obra. Afinal, se a vida não basta, a única coisa que lhe resta é a escrita.

 

               Voltamos à afirmação: por isso ler poesia é muito difícil (há quem passe anos só para esgotar a compreensão de um único poema). Nunca saberemos e nunca chegaremos à dor sentida do poeta. Alguma crítica literária até dirá, e com razão: e não é interessante saber daquilo que o poeta sentiu, pois o que interessa é a obra. O poema é sempre um campo minado onde é preciso ter cuidado, onde, por vezes, nos sentimos virados de cabeça pra baixo.

 

              Lembrando um poema do Manuel Bandeira, “Renúncia”, o que resta ao poeta é isto: tentar curtir, sem queixa, o mal que lhe crucia, porque o mundo, de fato, é sem piedade (Bandeira, talvez, seja um dos melhores exemplos para esta prosa sobre vida/dor/criação literária, já que vivia constantemente ameaçado pela morte por conta da tuberculose, e viveu muito...). A última estrofe do poema do Bandeira termina com o seguinte verso: “Encerra em ti tua tristeza inteira”. Curtir, encerrar, para viver uma vida de renúncia, de sacrifício. Afinal, todo poeta vive de renúncias. A vida é constante renúncia diante da conformidade dos que aceitam tudo que lhe é imposto. O poeta não é conformista. E nem pode ser. O poeta sempre diz não. Lembrando um filósofo do século XVI, Blaise Pascal, em sua monumental obra Os Pensamentos, muitos são os entretenimentos e as distrações da vida que põem o homem em apatia e conformismo (veja como Pascal diz isso no século XVI e é tão característico de nossa contemporaneidade!). Por isso o poeta é um sujeito que está – e estará – sempre à margem.

 

             A vida em desuso. A vida em declínio. Fundo sem fundo. Vários são os poetas e poemas que poderíamos citar aqui nestas notas extremamente introdutórias a uma questão teórica ainda muito cara à própria teoria da literatura: a dor como mola propulsora da criação literária, quer dizer, quando a poesia beira o niilismo. Termino com dois poemas de dois poetas de tempos diferentes, mas que dialogam entre si. Um, “Silêncio” de Medeiros e Albuquerque, poeta pernambucano ainda muito esquecido, introdutor do simbolismo no Brasil e cronologicamente precedente à Cruz e Sousa. Aliás: o romantismo é o maior movimento quando falamos de dor como criação, tendo em vista sua complexidade e seu forte traço existencial. Outro poema: “Soneto da contradição enorme”, de Torquato Neto, poeta piauiense desaguando na Bahia e peça chave para o tropicalismo. Talvez não seja acidental terminar estas notas com um poeta simbolista e um poeta “marginal” da poesia contemporânea (acidental também por serem dois sonetos), tendo em vista que a “poesia marginal” tem um traço existencial e um apelo ontológico um pouco próximo da poesia simbolista. Fiquemos com os poemas. Fiquemos com.

 

 

SILÊNCIO

Cala. Qualquer que seja esse tormento

que te lacera o coração transido,

guarda-o dentro de ti, sem um gemido,

sem um gemido, sem um só lamento!

 

Por mais que doa e sangre o ferimento,

não mostres a ninguém, compadecido,

a tua dor, o teu amor traído:

não prostituas o teu sofrimento!

 

Pranto ou Palavra - em nada disso cabe

todo o amargor de um coração enfermo

profundamente vilipendiado.

 

Nada é tão nobre como ver quem sabe,

trancado dentro de uma dor sem termo,

mágoas terríveis suportar calado!

(MEDEIROS E ALBUQUERQUE, In: Canções da decadência e outros poemas, Editora Martins Fontes, 2003, p. 153).

 

 

 

SONETO DA CONTRADIÇÃO ENORME

 

Faço força em esconder o sentimento

Do mundo triste e feio que eu vejo.

Tento esconder de todos o desejo

Que eu não sinto em viver todo o momento

 

Que passa. Mas que nunca passa inteiro.

Deixa comigo o rosto da lembrança

E o fantasma de só desesperança

Que me empurra e de mim me faz obreiro

 

De sonhos. Faço força em esconder

Do mundo, a dor, a mágoa e a cabeça

Que pensa tão-somente em não viver.

 

Faço força mas sei que não consigo

E em versos integral eu me derramo

Para depois sofrer. E então, prossigo.

 

(TORQUATO NETO, In: Torquatália - do Lado de Dentro, vol. I, Editora Rocco, 2004, p. 46).

 

 

 

  •  

Rodrigo Michell Araujo.

Mais sobre mim

Rodrigo Michell Araujo

Doutor em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Portugal (2020). Mestre em Estudos literários (2014) pela Universidade Federal de Sergipe, Brasil, onde fui professor substituto de Literatura Portuguesa. Licenciado em Letras (2010) pela Universidade Tiradentes (Aracaju - SE).

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