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filosofia e literatura em língua portuguesa

filosofia e literatura em língua portuguesa

22
Mai20

Do Absurdo da existência: o «homem absurdo» em Teixeira de Pascoaes e Albert Camus

RODRIGO ARAUJO

Quando se fala da obra literária de Teixeira de Pascoaes, alguns elementos que são centrais devem ser destacados, como a íntima relação com a Natureza, revelando certo naturalismo — o próprio Sant’Anna Dionísio, em artigo para a Revista Seara Nova, de 1954, afirmou que Pascoaes «se exprime como se quisesse entender mais com as árvores do que com os homens» (Sant'Anna Dionísio, 1954, p. 52) —, mas também um panteísmo muito presente tanto na poesia como na prosa. Quando tratamos de seus poemas, o mistério está sempre presente. Ou mistérios, no plural. Há, pelo menos, duas manifestações que se relacionam: o «mistério» que o sujeito lírico (também o próprio Pascoaes) vê na Natureza é também o mistério do Ser.

 

Podemos destacar alguns termos que irão figurar quase todos os versos de Teixeira de Pascoaes, desde as suas obras iniciais: o vago, o indefinido, o esboço, o disperso, o suspenso.  Termos que são impregnados para adjetivar o sujeito poético. Se a poesia de Pascoaes tenta definir uma ideia de Ser, é sempre mediante um olhar distanciado. Em Terra Proibida, de 1901, no poema «Canção molhada», vemos que o eu lírico é um «morto sem sepultura» (PASCOAES, 1997, p. 248). Este estado de suspensão do Ser, que é estar morto sem sepultura, é necessário a Pascoaes para tematizá-lo. Mas esta tematização invariavelmente se traduz em procura. O Poeta quer desvelar o mistério que há no Ser, e o faz pelo silêncio — talvez aqui uma influência de Leonardo Coimbra, que viu a «alegria» de desvendar o mistério: «penetrar o mistério, que sublime alegria!» (Leonardo Coimbra, em A Alegria, a Dor e a Graça, p. 48).

 

Na procura pelo Ser, Pascoaes descobre o Absurdo. Ou o «homem absurdo», tal como vislumbrou Camus ao questionar o sentido da vida, justamente neste estado de suspensão e de distanciamento que há na poesia de Pascoaes. Questionar, mas também duvidar. Em Pascoaes, como também em Albert Camus, há uma procura por um «elo» que faça superar sua condição de estrangeiro na existência, mas encontra apenas o «divórcio» da vida. É o que Camus, em O mito de Sísifo, entenderá por «absurdidade», pois «esse divórcio entre o homem e a sua vida, entre o ator e seu cenário, é que é propriamente o sentimento da absurdidade» (Albert Camus, O mito de Sísifo, p. 9).

 

Quanto ao Absurdo, Pascoaes e Camus mantém uma estreita aproximação. Ambos partilham um pensamento, experiência e criação do Absurdo. Cada um, à sua maneira, aponta o absurdo da condição humana, mas também o «porque» e o «para quê» que o homem absurdo lança diante da sua própria existência (absurda) — por isso, em Para a luz, de Pascoaes, haver uma presença de Camus em quase todos os poemas, pois o sujeito poético, sempre revoltado, vislumbra a miséria da existência, mas, à maneira de Camus, tenta dar alguma forma ao seu destino. Se Camus apela para que nós imaginemos «Sísifo feliz», é para assim encontrarmos alguma «clareza» na corda da familiaridade que nos liga à existência. 

 

Parece-me que a poesia de Pascoaes sempre comportou este «homem absurdo» camusiano, alternando entre a felicidade e o absurdo, tentando superar o bacilo da existência. É o que está expresso em quase todos os poemas da obra póstuma Últimos versos, de Pascoaes. Nestes «últimos versos», Pascoaes mantém a «originalidade» que constitui seu expressar, diferentemente do que entendeu João Gaspar Simões, ao tratar os Últimos versos como uma obra em que a Filosofia se sobrepõe à Poesia, onde o Poeta está «a atraiçoar a poesia com a razão, com o discurso, com a Inteligência» (João Gaspar Simões, Suplemente de «Amanhã», jornal Letras e Artes, 1953, p. 1) — afirma até que a obra expressa menos uma originalidade e mais uma «excentricidade», fazendo dos Últimos versos uma obra de «locubrações pseudo-filosóficas» (Idem, p. 10). 

 

No poema «Loucura», podemos observar que o que está em causa é o «sonhar acordado», que tão bem constitui a sua criação poética. O devaneio poético é uma via que Pascoaes encontra para apreender o Ser. No poema, o Ser aparece como síntese:

 

Deus e Satã, o mesmo Ser

Com duas faces,

A branca e a negra,

A do verbo encarnado

E a do silêncio

Anterior ao verbo

Mas grávido de toda

A etérea música

(PASCOAES, 1953, p. 27).

 

 

O Ser é Verbo, mas também silêncio primordial, que é anterior ao próprio Verbo. Eis o que constitui o «homem universal» pascoaesiano. Se Pascoaes encontra esta «síntese» no Ser, é porque o próprio silêncio é abertura para a síntese, como também para o encontro e para as resoluções de qualquer «tensão» entre os opostos. Em Últimos versos, os títulos dos poemas já inscrevem esta síntese, a partir da conjunção aditiva «e»: «Pobres e ricos», «Ontem e hoje», «Vento e chuva», «Antes e depois», «Hilário e nobre, «O longe e o perto». No poema «Convivência», convive no homem os opostos, o próximo e o distante:

 

No próximo reside

O tremendo conflito

Da convivência.

Estalam ruídos agressivos,

Brilham gestos em lâminas de faca,

Rebentam bombas!

[…]

Mas, na distância,

Ressoa a música dos astros,

Para os herdeiros de Platão,

Esses poetas

Ou esses místicos…

Sem misticismo a nossa vida

É apenas existência,

Objecto e não sujeito

(PASCOAES, 1953, p. 46).

 

 

Em «O longe e o perto», é o próprio poeta, Teixeira de Pascoaes, que se vê como síntese, principalmente síntese de seus próprios personagens:

 

O perto é vivo, o longe é morto.

A morte é na distância,

Em nós, a vida.

A vida é o tempo que voa,

A morte é a eternidade,

Negra e parada, nesse

Distanciamento

[…]

E quem sou eu?

O doido e a morte, a Esfinge,

A luz da Lua

E o pobre tolo,

Na tua ponte, ó São Gonçalo

(Idem, p. 48, grifos do autor).

 

Esta «síntese», pela qual o Poeta apreende o Ser, só é possível mediante o silêncio, pois é este que permite «a intimidade mais perfeita» (Idem, p. 79) entre os opostos. Se o silêncio está presente em seus «últimos versos», é para que o poema possa guardar o Ser. Pois é pela poesia e pelo silêncio que Pascoaes chega ao Ser.

 

§

Rodrigo Michell Araujo

20
Mar20

Meditação de isolamento para tempo incerto

RODRIGO ARAUJO

Dolente,

percorro inutilmente o tempo das horas mortas. 2020 parece um ano por começar apontando para o vazio, impondo-nos um isolamento que, por vezes, é angustiante. Bombardeia-nos o medo: do movimento, do toque, da empatia, do afeto. Estamos ilhados. Sós. Numa profunda ilha da qual já nos encontrávamos em estado de sonolência, inertes por alguma espera vinda de não sei onde. Onde estamos? Talvez perdidos, mas certamente embebidos do espanto da clausura. Primeiro, a clausura do fora. Segundo, a clausura do dentro. A pior. O mais fundo pântano de nós mesmos. Absurdamente abandonados.

 

Todos os dias a mesma rotina: pôr o café na cafeteira e perder-se, em seguida, na parca luz que vem de fora. Uma "estátua falsa" despoletada do templo prestes a ruir sem deus, como aquele poema do Sá-Carneiro. Mas estátua atenta ao grosso silêncio que se ouve lá de fora, onde nada se mexe. Depois tem o fumo do cigarro que se encortina no espaço, deixando a visão suspensa. Mentira. Quem fica em suspenso é tão somente a fundura do meu Ser. Mais adiante o silêncio... meu amigo, minha música. Pensamos, por vezes, que no abissal silêncio a gente até escuta o pulsar do coração. Não. Comigo o silêncio faz vibrar com violência todas as paredes do meu Eu, fecho os olhos, e então a Música começa.

 

Pouco a pouco vamos nos entretendo com as miudezas do dia a dia. Boiar os olhos na overdose de notícias de uma tevê uníssona, pegar um livro e folhear as páginas, mas vagarosamente, porque há muito tempo e é preciso desfrutá-lo de algum modo, e de novo o café, o intrépido alimento. Mas você se esquece que está irremediavelmente só. Lembrei de um poema. É de um poema do Adolfo Casais Monteiro, intitulado "A manhã no café deserto", que versa sobre essa quase letargia que me vejo em tempos incertos (e que máxima importância tem um Café, o lugar eleito dos solitários). É assim o poema:

Café.
Ruídos abafados.
É como se a vida fosse calafetada.
Quase silencio.
Os ruídos da rua chegam por este corredor fora
Como enfraquecidos da viagem.
Aqui ao fundo a sombra é maior,
Hoje que chove lá fora,
Miudamente.
Tepidez.
Folheio livros, distraído,
Por aqui ser inútil fingir qualquer acção.
Estar aqui sozinho é viver intensamente,
Estar aqui silencioso e recolhido
Dá não sei que ciência de todos os segredos do fluir da vida.
O café: acumulador de todos os destinos aqui suspensos um

[momento:
nesta atmosfera densa permanece a síntese de todos os caminhos
Aqui onde o silencio existe a esta hora da manhã,
Existe apesar dos ruídos,
Segunda atmosfera suspensa e doce,
Alheia ao que não seja a sua compenetrada reflexão
Sobre o surdo ressoar das vidas que por aqui se fixaram um

[momento.
Planalto para onde todos trouxeram a descansar a agitação das suas vidas
Que puseram ao lado a acalmar sobre os longos divãs de couro,
E onde vieram beber na espessa bebida negra a paz momentânea

[ou mais excitação.

Paz.
Lusco-fusco.
Alheamento.
Aqui até a nossa vida nos é um espectáculo
Exterior como um filme ao fundo da sala em trevas.
Café,
Meu amigo!

 

Primeiro deixa eu te falar uma coisa. Eu adoro o título deste livro do Adolfo Casais Monteiro onde o poema acima se encontra, chama-se Poemas do tempo incerto, de 1934, com poemas escritos pelo autor entre 1928-1932. De algum modo, sempre vivemos em algum tempo incerto, e talvez os poetas melhor cantem essas incertezas que ecoam das agruras da vida. Talvez, ainda, eu esteja me confundido no que quero dizer porque essa clausura me faz perder de mim mesmo em estranhos labirintos. Os dias têm sido de errâncias, mas propriamente imaginárias, não as físicas. E clausuras sempre nos conduzem a portas metafísicas. Mas,

 

tenho que manter os pés no chão. Café outra vez. Sim, o que eu gosto no poema do Adolfo Casais Monteiro é a maneira íntima como expõe a parte solitária de nós neste "estar aqui silencioso e recolhido" que nos impele a uma sensação de tocar nos segredos do fluir da vida.  Porque quanto mais distante, e mais distante de nós, mais a ressonância do segredo se faz audível, que é a parte mais audível do silêncio. Eu tenho que lhes contar: a meditação tem sido o cais onde o meu barco cansado aporta, de onde desço cansado, onde ando cansado, e mais adiante me sento para beber a espessa bebida negra de onde tento tirar a paz momentânea.

 

Vou ficar aqui, sentado,

Calado. Quieto. À espera de qualquer coisa...

Mais sobre mim

Rodrigo Michell Araujo

Doutor em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Portugal (2020). Mestre em Estudos literários (2014) pela Universidade Federal de Sergipe, Brasil, onde fui professor substituto de Literatura Portuguesa. Licenciado em Letras (2010) pela Universidade Tiradentes (Aracaju - SE).

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